domingo, 8 de fevereiro de 2009

Gostei. E concordo

Tá no Uol deste sábado/domingo.
Esqueça a psicologia pop no futebol - traga de volta a superstição

Simon Kuper

"Se tudo mais falhar, tente o vodu", é uma regra ensinada nas escolas de administração e negócios mais progressistas. Agora ela chegou aos torcedores de futebol mexicanos. Na próxima quarta-feira, o México jogará uma partida pelas eliminatórias da Copa do Mundo nos Estados Unidos, onde não vence há 10 anos. Assim, um jornal mexicano imprimiu cupons, que os fãs poderiam recortar e trocar nas lojas Radio Shack por bonecos de vodu dos jogadores americanos. As propagandas do jornal mostravam alfinetes sendo espetados em um triste boneco. Mas então a Radio Shack ficou embaraçada e desistiu da promoção.

É uma pena. A superstição está desaparecendo do esporte. Ela vem sendo substituída nos vestiários americanos pela oração, com resultados conflitantes, e em todos os demais lugares pela psicologia pop, enquanto no futebol inglês todas as derrotas são agora atribuídas a decisões insanas de arbitragem. Gennaro Gattuso, o jogador de futebol italiano que supostamente se prepara para as partidas lendo Dostoiévski no banheiro, é um raro esportista moderno que mantém o ritual primitivo. Nós precisamos buscar inspiração nos anos 70, a década que foi o auge da superstição no esporte. Aqui, como um serviço gratuito ao México e outros times perdedores, estão as superstições que tornaram grandes os grandes jogadores.

Johan Cruyff. O maior jogador da Holanda era dependente de uma série de rituais obsessivos antes dos jogos. Durante sua época no Ajax, eles incluíam dar tapas na barriga do goleiro Gert Bals e cuspir sua goma de mascar no campo oposto antes do pontapé inicial. Quando Cruyff esqueceu a goma de mascar na final da Liga dos Campeões de 1969, o Ajax perdeu por 4 a 1 para o Milan.

Estranhamente, quando pedi um conselho sobre superstição para Cruyff décadas depois, ele disse que o mais importante era os jogadores não acreditarem nela. "Você precisa se certificar de que não tenha influência", ele ensinou. "Se você achar que ele está agindo um pouco estranho, e ele disser, 'Sim, porque sempre levanto da cama pelo lado esquerdo e hoje levantei pelo direito', você tem que dizer: 'Rapaz, isso não tem influência'. Se influenciar, você poderá deixar de jogar na próxima partida."A negação de Cruyff mostra o embaraço que agora está associado à superstição. Os rituais sobreviventes praticamente se tornaram secretos.

França em 1998. O goleiro é o equivalente do futebol ao salvador. Este provavelmente é o motivo para seu corpo às vezes ser tratado como um ícone primitivo, com os suplicantes o tocando em busca de sorte. Os rituais franceses na Copa do Mundo de 1998 incluíam sempre ocupar os mesmos assentos no ônibus da seleção, ouvir ao sucesso de Gloria Gaynor dos anos 70, "I Will Survive" no vestiário (talvez não cientes de que é um hino gay), o beijo climático que o zagueiro Laurent Blanc dava na cabeça careca do goleiro Fabien Barthez antes do pontapé inicial. A França conquistou a Copa do Mundo.

Holanda em 1974. O que é bom a respeito da cabeça do goleiro é que é difícil de esquecer. Pena que o mesmo não possa ser dito sobre a fita cassete que a ótima seleção holandesa de Cruyff tocava durante a Copa do Mundo de 1974. No ônibus da equipe antes de cada partida, os jogadores cantavam juntos a uma fita dos The Cats, um grupo pop atualmente esquecido de uma aldeia pesqueira holandesa. A Holanda arrebentou durante todo o torneio. Mas no dia da final da Copa, ninguém conseguia encontrar a fita cassete. Em vez disso os holandeses escutaram "Sorrow" (pesar) de David Bowie, e perderam.

Bobby Moore. O capitão da Inglaterra dos anos 60 e 70 precisava ser a última pessoa no vestiário a vestir seu calção antes do pontapé inicial. Em 1981, o zoólogo Desmond Morris escreveu em "The Soccer Tribe", um dos primeiros livros a levar o futebol a sério: "O companheiro de equipe de Moore, Martin Peters, ficou fascinado pela forma como ele ficava perambulando segurando o calção, aguardando para que todos os demais terminassem de se vestir". Peter fazia que ia urinar enquanto esperava Moore vestir seu calção, e então tirava o seu. Moore respondia tirando seu calção e aguardava até que Peters vestisse o seu de novo. Esta brincadeira não tinha um fim lógico e pode explicar por que a sorte da Inglaterra ruiu nos anos 70.

Bjorn Borg. O maior jogador de tênis dos anos 70 venceu cinco vezes Wimbledon ao aderir a uma série de rituais como os de Cruyff. "Na noite anterior ao seu jogo de estréia", escreveu Tim Adams em seu quase perfeito "On Being John McEnroe", Borg e seu técnico "pegavam suas raquetes Donnay e, por cerca de duas horas, testavam sua tensão gentilmente as dedilhando juntos e escutando o som que faziam. Cada raquete era então disposta no chão de acordo com sua afinação musical relativa". Elas assim ficavam no quarto de hotel de Borg até o dia da partida. O sueco tinha muitos rituais ridículos -e eles funcionavam.

Pelé. Certa vez o grande brasileiro deu uma de suas camisas para um torcedor, "apenas para descobrir que seu futebol piorou em seguida", como escreve Desmond Morris. Então Pelé fez com que um amigo rastreasse o torcedor e pegasse a camisa de volta. Uma semana depois, seu amigo entregou a camisa de volta para Pelé. O futebol do jogador voltou imediatamente. Morris conclui: "Seu amigo foi cuidadoso em não lhe dizer que a busca tinha sido fútil e que ele simplesmente devolveu ao astro a camisa com que perdeu miseravelmente na semana anterior". Mesmo assim, parece ter funcionado para Pelé.


Tradução: George El Khouri Andolfato

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