quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ótimo texto num ótimo blog

O texto abaixo é um orgulho para mim. Além de ter sido escrito pela Raquel, é de uma perspicácia fantástica.

Digo mais: esse texto de blog é melhor que muito ensaio e artigo de jornal que saem por aí.

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Os anos se passaram... e eu ainda não aprendi a fazer arroz!!


O padre, a quem fiz minha primeira e única confissão religiosa na época da catequese, bem que me alertou: “Minha filha, você é uma mulher! Mulheres devem aprender a cozinhar, a bordar, a tocar piano...Mulheres devem aprender os afazeres de um lar!”. Talvez eu tenha me afastado da Igreja (no sentido restrito e no sentido amplo do termo) porque aquela definição do padre nada tinha a ver comigo. O que não me impedia de ter a noção, desde aquela época, que a minha principal missão no mundo era saber ser mulher.

Hoje, percebo que o padre não estava tão descontextualizado quanto julguei. Aliás, a que estava fora do contexto era eu! E ainda estou, mas dessa vez não me silenciarei diante das inquietações que a questão causa.

Escreverei aqui, brevemente, sobre as quatro mais recorrentes instruções atuais sobre o que é ser mulher na sociedade contemporânea e as suas (in)conseqüentes confusões:

1ª- A mulher deve ser independente: frase que escuto desde criança, herança da crise aguda (redundância necessária!) do feminismo. A mulher deve se formar intelectualmente, de modo a não depender de mais ninguém, em nenhum aspecto. Antítese compreensível para aquele momento histórico, em que a tese era a de que a mulher devia ser submissa ao homem. Ressalto que, entretanto, a síntese de tal relação dialética ficou por vir. E o título de mulher-plenitude não pôde ser encontrado nas super poderosas, porém carentes representantes deste modelo de feminilidade.

2°- A mulher deve se casar: por mais contraditório que possa parecer, é a frase da moda, em pleno século XXI. Assustadas com o excesso de independência da geração anterior, naturalmente confundido como fracasso emocional, as mulheres jovens da atualidade sentem medo de se tornarem “a solteirona” da turma, “a encalhada”. As festas de casamento passaram a ter força equivalente ou até superior à união em si, tornando-se cerimônias de “atestado de competência feminina”. As noivas, orgulhosas de si, arremessam seus simbólicos buquês às não-ainda-mulheres, as solteiras. Momento de glória às vitoriosas recém-casadas! Entretanto, a festa acaba, bem como a ilusória plenitude feminina. E a sensação de quase-mulher volta, até...

3°- A mulher deve ter filhos: ...até o momento em que ser mãe se torna função pré-requisito para a aquisição do título de mulher. As quase-mulheres perseguem aquele antigo sonho de ter filhos, na sua busca incessante pelo tal atestado de competência feminina. Este momento é pesado para todas, mas para as casadas a cobrança é ainda maior. E pobre daquela que ousa confessar não sentir vontade de levar a família adiante! Esta é a quase-mulher mais distante de adquirir o seu título, aos olhos da sociedade.

4° - A mulher deve ser a matriarca: merecem parabéns as quase-mulheres que chegaram neste ponto! Foram esposas, foram mães, foram avós...mas não obtiveram o almejado título de mulheres-plenas, pois não foram independentes!

E a pergunta que fica sem respostas: quem merece de fato o título de mulher, com toda a sua plenitude? Ninguém? Ou todas?

Penso que não se trata de título. Também não se trata de funções exercidas. O apaziguamento com o nome “mulher” e todas as suas implicações deve advir da simplicidade quase inalcançável de se conseguir ser quem se é, de se seguir o próprio desejo e ir adiante, seja lá para onde isso levar.

Enquanto também não sei bem o que fazer com isso, quem sabe não me dedico à aprendizagem de como se fazer um bom arroz!!

Um comentário:

Raquel disse...

Não sei nem o que agradeço, já que motivos não me faltam!
Um sincero obrigada!
E aguardo um texto seu para o meu blog, viu?
bjos